Qual a importância do 8 de março para a luta das mulheres, em especial nesse momento histórico que o Brasil vive com o acirramento da luta de classes com ataques à democracia?

O 8 de março surgiu da necessidade das mulheres se organizarem para defenderem os seus direitos. Quando surgiu foi muito em função de garantir para as mulheres direitos trabalhistas, porque as condições de trabalho eram muito negativas. E da organização das mulheres para transformar não só a relação de trabalho, mas também a sociedade. Tanto que foram as socialistas que propuseram que esta data fosse sempre uma data de luta internacional. E esse 8 de março, em especial, já vinha sendo tratado com uma grande importância pela ofensiva conservadora que viemos enfrentando no movimento feminista e que pretende retroceder em relação aos direitos que a gente vem conquistando ao longo dessa luta.

Direitos conquistados sobre o enfrentamento à violência, direitos com relação à saúde sexual e reprodutiva. Esses direitos vêm sendo atacados pelo Congresso, pelas bancadas fundamentalistas, e pelas bancadas da bíblia, da bala e do boi. Já vínhamos nos organizando, com a primavera feminista e outras ações. Desde que esta onda de ódio com ameaças aos nossos direitos se instaurou no Brasil, o movimento se reorganizou.

O fator novo neste 8 de março é que estamos vendo a nossa democracia sendo ameaçada, e, portanto, essa virou a pauta principal das mulheres: ”em defesa da democracia e contra a retirada de direitos, mais poder para as mulheres e mais mulheres no poder”. É a centralidade que a gente dá, pois se não tivermos democracia não existem avanços possíveis, e vale ressaltar que hoje já não temos muitas mulheres nos espaços de poder e as que ocupam estes espaços já são barbaramente atacadas todos os dias por seus pares, dentro do próprio parlamento. Nossa principal figura política do país, que é a nossa presidenta, a primeira mulher a ocupar este espaço, sendo atacada sem provas, sendo acusada, sendo marginalizada, pessoas agredindo todas as suas conquistas, o que faz com que nós também nos sintamos atacadas.

Contra qualquer possibilidade de impeachment, a não ser que existam instrumentos legais para isso, o que ainda não vimos. Vemos uma pressão política da elite econômica de nosso país e de uma mídia extremamente golpista. A mesma mídia que sempre nos objetifica, que nos coloca num papel de vulgarização, de erotização, de produtos pro mercado, é essa mídia que tenta colocar na cabeça das pessoas que a política não presta, que as pessoas não se envolvam com a política e queremos justamente o contrário. Que as mulheres se envolvam na política, pra transformar o que achamos que está errado.  

Se fizermos um recorte do seu período de militância, iniciado em 2002, você acredita que, de lá para cá, a luta das mulheres avançou?

Tanto na institucionalidade quanto no movimento social, conseguimos vários avanços. Quando eu ingressei no movimento era muito fechado. Era um movimento muito academicista. Um movimento de quem já entendia sobre feminismo, quem já era estudiosa dessa pauta. Ou quem já trabalhava com as políticas públicas para as mulheres. Víamos que eram sempre as mesmas a participar. Com o passar do tempo, as mulheres foram ocupando mais espaços. Sejam nas universidades, nos sindicatos, nas associações comunitárias, em todos os movimentos. Junto disso, levando questões que são das mulheres e as próprias dificuldades que nós temos para estarmos nesses espaços.

Porque a gente ocupa o mercado de trabalho, mas em que condições? Se a gente não tem hoje creche para deixar nossos filhos para poder trabalhar e estudar, imagina instrumentos que permitam as mulheres a participar da vida política. Hoje, vemos que tem muito mais mulheres. As meninas de 13, 15, 16 anos já reconhecem sua opressão, já se organizam e já fazem a luta em todos os espaços que elas ocupam. Embora a gente não consiga ter representatividade nos espaços de poder mesmo, legislativo, executivo, apesar de ser maioria da sociedade, maioria de eleitoras, nós não ocupamos mais do que 10 ou 12% desses espaços.  Avançamos em muitos espaços, mas nesses ainda não. A dificuldade é ainda maior para uma mulher lésbica, negra ou indígena do que para uma mulher branca, heterossexual.

Também tivemos conquistas em termos de projeto de leis, a própria Lei Maria da Penha é um exemplo. Que completará 10 anos, em 2016. Foi uma conquista do movimento feminista com o apoio das legisladoras que nós conseguimos eleger. Me lembro que a Jandira Feghali [deputada federal] foi a relatora. Aqui no RS, a Jussara Cony [atual vereadora] enquanto deputada estadual promoveu audiências públicas em várias regiões do estado pra poder conscientizar e convencer a sociedade civil e fazer a lei.

Mais recentemente, em março do ano passado, começou a valer a lei do feminicídio. Se temos um país em que de 13 a 15 mulheres morrem por dia por ser mulher, sem outra motivação que não a de gênero, precisamos de uma lei dessas. Com relação ao aborto legal e seguro, como em caso de risco de vida, como em caso de estupro, ou anencefalia: nada foi conquistado sem luta. Precisamos ter essa luta maior, e estamos conseguindo isso. Cada vez mais mulheres participando. Pois antes era feio se dizer feminista. Muitas mulheres já eram feministas no seu dia-a-dia, mas não se falava nisso. Agora não, as pessoas querem ser feministas, querem se tornar feministas, mesmo alguns meninos querem ser feministas, querem apoiar o feminismo. Precisamos de uma sociedade feminista, o feminismo não é o contrário do machismo. O feminismo é a libertação, o machismo a prisão. Os próprios homens sofrem com o machismo e com as imposições do patriarcado.

Você citou que hoje as mulheres iniciam-se, cada vez mais, cedo na luta feminista. O que você achou das ações das meninas do Anchieta, defendendo o uso do shortinho? Você as apoia? Acredita que esse movimento dá contribuições à luta das mulheres?

Não quero parecer muito sensível, mas cheguei a chorar quando vi essas manifestações. Fiquei emocionada, pois acredito que essa nova geração vai ajudar a transformar as coisas. No outro dia ao ato, já fiz contato com elas pela página que criaram no Facebook. Elogiando, motivando, incentivando, porque acho que é um recado importante que elas estão dando “ensinem os meninos a respeitar e não as meninas a se comportar”. É calor, Porto Alegre tem dias infernais e o shortinho, a mini blusa, o vestido, o decote, por que não? Se os meninos podem andar sem camisa, eu não posso andar de mini blusa? Dizem: dependendo de como a mulher está vestida ela está passando um recado. Na minha visão esse recado é: o corpo é meu. Eu também posso, eu tenho esse direito. O recado é: estou com calor. Quero me sentir a vontade, esse é o único recado que a gente quer dar quando estamos com uma roupa curta, ou decotada, ou à vontade. Ninguém tem o direito, de burca ou de biquíni, as mulheres são estupradas e a gente precisa ensinar os meninos a respeitarem, e não se excitarem e erotizarem apenas ao olhar o corpo das mulheres.

Eles não têm o direito de tocar sem pedir permissão, pois o corpo é nosso. Pode até ser que a gente permita, mas tem que perguntar. Não pode assediar, provocar. A ideia é ir para o enfrentamento e fazer a disputa no campo das ideias, realizando esse tipo de protesto lúdico como elas fizeram. Todas vestiram shortinho e foram para o pátio da escola com cartazes exigindo respeito. Pois é isso que a gente quer, ocupar o lugar que historicamente nos foi negado, nos foi roubado. Só o nosso lugar, porque temos tanto direito quanto. Tiraram nossos direitos, roubaram nossos direitos, inclusive sobre nós mesmos, sobre as nossas vidas.

Em quantos países ainda o pai ou o marido tem direito a matar a mulher por crime de honra? Isso não existe mais aqui, graças à lei do feminicídio. Mas, às vezes, ainda vemos, em municípios do interior, delegado ou policial registrando ocorrência de crime de honra. Ainda iremos superar isso, um dia, através da luta.

Quem são os principais inimigos, atores políticos e sociais, que impedem o avanço do direito das mulheres hoje no Brasil?

Acredito que todos que ameaçam a democracia e os nossos direitos são nossos inimigos. Acho que não podemos perder a perspectiva de que algumas pessoas precisam ser desgastadas para que não ocupem mais espaços em que estão, pois elas não representam a sociedade. Nesses espaços, representam apenas alguns setores. Por exemplo, Eduardo Cunha. Ele está lá servindo a quem? A quê? Por que não é para a sociedade brasileira que ele trabalha. Ele pode ter qualquer outro tipo de interesse, menos esse. Bolsonaro, quando incita ao ódio, quando incita à violência, como vários deles fazem hoje, às mulheres, aos LGBTs, aos indígenas, aos negros. Poderia citar uma lista, pessoas como Cunha, Bolsonaro, Feliciano, aqui no Rio Grande do Sul, Luis Carlos Heinze.

Quantas pessoas que falam mal da gente e que fazem mal para a gente? Que o tempo inteiro tentam arrancar conquistas que demoramos, às vezes, trinta ou quarenta anos para obter e efetivar. Além desses também os grandes barões da mídia. Vou dizer que Marinhos são nossos amigos? Que a Globo nos representa? De que forma nós somos vistas lá? E se eles estão jogando do outro lado, contra a democracia, apoiando um impeachment fraudulento. Ações policiais que extrapolam o estado democrático de direito, como poderei dizer que essas pessoas são amigos das mulheres?

Infelizmente não basta ser mulher. Pois nós também temos algumas mulheres que não nos representam. Ou a gente pode levar a sério o trabalho de uma jornalista como a Cristiana Lobo? Eu raramente assisto TV. Porque dá nojo e indigna. Vemos que é uma coisa super tendenciosa. Porque aqui no Brasil eu não vejo essa grande mídia, não só a Globo, se esforçar para levar informação real e isenta sem se posicionar. Estão todas se posicionando. E, por isso, eu convoco as mulheres também a se posicionar. Não é momento de ficar em cima do muro. Ou tu estás em defesa da democracia, ou tu estás apoiando que a gente vá regredir em relação às conquistas que nós tivemos. Ou tu estás em apoio a uma série de mudanças, que apesar de não terem sido aprofundadas como a gente gostaria, estavam melhorando sensivelmente a vida do povo, colocando pessoas na universidade, colocando mais comida na mesa das famílias. Ou a gente esquece que a maioria das famílias aqui são chefiadas por mulheres? Nós também estamos pagando a conta desta crise. Mas nós não queremos mais pagar essa conta. Porque a gente produz a riqueza desse país e, portanto, também queremos colocar a mão nela, no sentido de poder dar aos nossos filhos, aos nossos netos, às novas gerações, um futuro melhor.

Ou iremos regredir, por exemplo, com o pré-sal? Nós conquistamos parte dos recursos do pré-sal  para a educação e para a saúde, e eu vejo que isso está ameaçado. A armação toda que está sendo levada adiante aqui é para quê? Se não é para privatizar os nossos recursos naturais, se não é pra retirar do nosso país tudo que a gente tem de bom e entregar para os interesses internacionais, e mesmo nacionais para uma elite que só pensa em si. Porque se quisesse distribuir renda, gerar emprego, gerar educação, poderíamos estar melhor há muito tempo neste país. Mas sempre foram eles que governaram. E as coisas só pioraram. Agora que começamos a melhorar, vai fazer 10, 15 anos que começamos a dar alguns passos rumo à melhoria da qualidade de vida não só de um, mas de todos de nosso país. Eles estão com toda força, querem acabar com as nossas conquistas, mas nós estamos firmes na luta para não deixar.