Abgail Pereira é secretária de Turismo do Governo do Estado e foi a 1ª secretária da Mulher da CTB-RS, em 2007.

CTB-RS – No ano passado, 46 mulheres foram assassinadas e entre janeiro e agosto deste ano, o número já chega a 50. Além disso, os casos de denúncias de violência contra a mulher são de, em média, 40 ligações por dia. O que a senhora acha que ainda precisa ser feito para que essa realidade seja modificada?


Abgail – Precisamos organizar, cada vez mais, ações que mobilizem as entidades representativas, o poder legislativo e executivo, as lideranças e a sociedade, chamando a atenção para o absurdo que é nós amargarmos com esses números. O Rio Grande do Sul é o segundo estado do país com o maior índice de violência contra mulheres. Ao se identificar que esse número é mais presente na serra gaúcha e na fronteira, conclui-se que é algo ligado a nossa cultura de uma maneira conservadora e muita atrasada do ponto de vista das relações sociais.


O Estado já tomou várias iniciativas para enfrentar essa violência. Buscou delegacias da mulher, criou casas de abrigos, que oferecem todo respaldo para a mulher e seus filhos, instituiu promotorias legais. Apesar disso, muitas das pessoas que lidam no campo com bichos, seguem tratando a mulher pior do que bicho. Então acredito que essa é uma questão cultural e para que seja modificada é necessário que siga havendo um debate permanente sobre esse assunto.


A violência contra a mulher se inicia de uma forma subliminar, psicológica, emocional, parte para a física e acaba levando a morte. Na época em que reivindicávamos a Delegacia da Mulher, nós identificamos que o debate sobre isso precisa acontecer e que Lei Maria da Penha deve sair do papel e ser trazido para a vida. Em briga de marido e mulher a sociedade tem que meter a colher, sim! Esta é uma máxima que tem que ser seguida. Descobriu-se que o agressor, em geral, é uma pessoa que se diz amar a mulher, ou seja, que tem uma relação afetiva com ela, ou ele é o irmão, ou pai, ou marido. Como é que estão essas nossas relações afetivas, a ponto de se acabar com a vida de uma pessoa? Nós temos que enfrentar de forma coletiva essa situação, metendo a nossa colher como poder público, como entidades representativas do conjunto da sociedade.


A CTB tem dado uma contribuição muito grande para esse debate por trazer, na sua concepção, a questão da mulher como protagonista da sua história e por dar visibilidade a ela como trabalhadora e com sua a relação na sociedade. A mulher ao ir ao mercado de trabalho, ela evidencia necessidades e faz avançar a humanidade na conquista desses direitos. A CTB sempre tem pautado esse debate e nós nos sentimos extremamente contempladas por uma central que chama para si a responsabilidade de ter esse debate vivo na sociedade.


CTB-RS – No 5º encontro das Trabalhadoras no Comércio e Serviços do RS, que aconteceu na Fecosul, no início do mês de agosto, a senhora defendeu a participação das mulheres na política e, consequentemente, nos espaços de poder. Por que a senhora acha que esse envolvimento é essencial para modificar a realidade da violência atual?


Abgail – É exatamente na política e nesses espaços de poder onde as coisas são decididas. As mulheres hoje ocupam todos os lugares da sociedade. Nós estamos presentes nas universidades, em todas as profissões, mas não estamos nos espaços de poder. Ainda é muito baixo o número das mulheres que participa das esferas de poder e nós já demonstramos a nossa capacidade, que precisou ser demonstrada, ao contrário do que acontece com os homens, que quando ascendem ao poder, não precisam provar suas capacidades. Isso porque, às mulheres, não basta estar qualificada do ponto de vista profissional. É preciso, ainda, comprovar que se é capaz. Na política ainda estamos num número muito reduzido. Nós precisar estar mais presentes nesse meio, porque humanizamos as relações.


Veja bem, se nós somos mais da metade da população e nós não participamos da política, está faltando essa metade. Está faltando esse olhar, esse sentimento, essa competência. Aqui na América nós já tivemos e temos ainda, Michelle Bachelet, Cristina Kirchner, Dilma Rousseff, mulheres que acenderam. Acho que essa é uma janela extremamente importante que mostra que as mulheres têm grandes capacidades. O cargo da presidência da república ao estar sendo preenchido por uma mulher nos deu uma visibilidade na ONU, por exemplo, mas isso por si só não resolve a nossa participação na política.


Esse ano nós temos mais mulheres candidatas, quiçá sejam eleitas. Torço para que nós tenhamos muitas mulheres candidatas a prefeitas das capitais no Brasil todo. Isso vai mudando a cara do Brasil. Antigamente, nós exercitamos a cidadania ao lutar pelo direito ao voto, agora nós queremos o direito de sermos votadas.


CTB-RS – As novelas e seriados da televisão brasileira mostram, seguidamente, as mulheres sendo alvo de preconceito, agressões, maus tratos. A senhora acha que esses temas são explorados da maneira correta ou poderiam ser conduzidos de outra forma?


Abgail – Deveriam sim ser conduzidos de outra forma. O uso da imagem social da mulher é extremamente distorcido e não representa o que é realmente a vida dela. Nas novelas, muitas atrizes têm suas personagens retratadas como fofoqueiras, fuxiqueiras, ou são mencionadas e valorizadas, apenas, por suas belezas físicas, sendo taxadas de “gostosas”. Essa é uma cultura que usa a mulher como uma propriedade ou como um objeto. Na música, por exemplo, elas são chamadas por frutas ou comparadas a animais.


No entretenimento, a mulher negra ainda é tratada pior. É difícil ela ser mostrada como alguém capaz, e quando consegue isso, ou ela é feia, ou má. Então é muito distorcido do papel que é hoje ocupado pela mulher na sociedade. Nós estamos no judiciário, na construção civil, nas universidades, somos ministras, deputadas, prefeitas. E como é que a TV representa essa mulher? É com o uso do corpo para vender cerveja, moto, produtos que muitas vezes não estão nem associados ao universo feminino. A mulher é usada apenas como um atrativo, sem se explorar sua capacidade que vem contribuindo com o avanço da humanidade.


CTB-RS – Segundo um estudo feito pelo Banco Mundial e divulgado no mês de agosto, de 2000 a 2010, a participação das mulheres no mercado de trabalho na América Latina aumentou 15%. Fato que contribuiu no combate a extrema pobreza inclusive durante a crise financeira, que explodiu em 2008. Apesar da independência financeira que parte feminina da população vem conquistando, há muitas mulheres que, em paralelo a isso, se submetem a viver com homens que as maltratam e não dão o seu devido valor. Por que a senhora acha que isso ainda ocorre?


Abgail – Posso afirmar que eu já me fiz essa pergunta por diversas vezes. Ao me reunir com mulheres que são expostas a situações de violência e procurar essas repostas, acabei identificando um mundo, em que é atribuído às mulheres serem as cuidadoras. Por várias gerações foi estimulado e culturalmente aceito isso. Nós cuidamos da natureza, das pessoas, dos animais. Historicamente isso perpassou gerações. Por vezes, as mulheres defendem o seu agressor dizendo “quando ele não está bêbado ele é bom”, “ele é um bom pai”, “ele me bate, mas não deixa faltar nada em casa”, “ruim com ele, pior sem ele”. Além disso, os filhos, a família e a sociedade cobram de uma mulher que abandona o homem. Porque o homem não é um ser agressor por natureza, e sim, é um ser agressor porque foi constituído socialmente num sistema em que é interessante que ele seja quem domina, assim ele reproduz por vezes essa opressão e bate.


É difícil para a mulher se desvencilhar do elo afetivo, mesmo sendo agredida. Há dados que dizem que as mulheres levam em média 10 anos para denunciar as agressões. Existem, ainda, situações em que a denúncia é feita, mas com o passar do tempo, elas voltam para os maridos, sempre na tentativa de resguardar a relação e isso por vezes custa a vida da mulher.


Num primeiro momento, nós achávamos que elas não denunciavam porque não ia adiantar nada. Hoje, com o advento da Lei Maria da Penha – duramente conquistada pelo movimento de mulheres, que vem tentando se afirmar na sociedade e enfrenta resistência do próprio poder judiciário para que ela seja aplicada – as mulheres estão denunciando mais e os números começam a aparecer. Por isso, algumas pessoas acreditam que as delegacias não estão cumprindo com seus objetivos, por acharem que o número cresceu, mas ele não cresceu. Ele apenas evidencia uma situação que já existia, mas que estava escondida.  Hoje com o amparo das delegacias e das casas de abrigo, as mulheres estão indo denunciar mais. 


Aline Vargas