O advogado Carlos Araújo nasceu em São Francisco de Paula, no final da década de 30, e teve uma importante atuação na luta armada contra a ditadura.

Muitos dos caminhos escolhidos por Carlos Araújo tiveram origem direta com a admiração que sempre teve por seu pai, o advogado Afranio Araújo. Além de ser comunista, Afranio foi o responsável por abrir o primeiro escritório brasileiro voltado exclusivamente à defesa dos trabalhadores. A adoração pelo pai não influenciou apenas na escolha política, mas também na profissional.

Suas raízes políticas se estendem na família. Seu tio, Floriceno Paixão, foi o co-autor da lei que instituiu o 13º salário e foi o autor da lei que estendeu o 13º também para os aposentados.


Apesar de ser conhecido, por muitos, como ex-marido da presidente da república Dilma Rousseff, com quem tem uma filha, Carlos Araújo tem uma carreira política consolidada voltada sempre à defesa dos trabalhadores. Sua trajetória inclui três mandatos consecutivos como deputado estadual pelo PDT. Conhecido pelo slogan: Carlos Araújo - Sempre com os Trabalhadores.


CTB-RS – Quando começou a sua percepção sobre comunismo e militância política?


Araújo – Quando eu era bem novo, comecei a me interessar pelo comunismo por causa do meu pai, que era comunista. Achava ele um homem justo, que lutava pelos pobres. Aos 14 anos comecei a sonhar em entrar para a Juventude Comunista. Eu era estudante do Colégio Rui Barbosa, em Porto Alegre, e conheci um jovem, Joaquim Felizardo, sobrinho do Prestes, com quem entrei para a militância e para a Juventude. Depois com o passar do tempo, participando de lutas sociais, fui adquirindo consciência da e um maior conhecimento, através de estudos. Hoje sou marxista.


CTB-RS - Como foi participar do movimento contrário à ditadura, que lembranças o senhor guarda desse tempo?


Araújo – O período da ditadura foi marcado por diversas limitações, em que movimentos reivindicatórios eram impedidos através da forte presença do exército que batia e prendia os trabalhadores. Sem espaço para desenvolver lutas sociais tal era a opressão e sem ver uma saída para o movimento operário, acabei sendo levado, juntamente com outros companheiros, a participar da luta armada contra a ditadura. Acabei preso. Vi que não aguentaria a tortura e que eu não podia entregar meus companheiros, assim a única coisa digna a fazer era me matar. Qualquer ser humano entre uma dor continuada, permanente, insuportável e a morte, prefere a morte. Menti que eu ia me encontrar com o capitão Carlos Lamarca (dissidente do exercito que aderiu a luta armada contra a Ditadura Militar) num local de São Paulo, com trânsito movimentado, e depois de muito vacilar, me atirei na frente de uma Kombi. Logo após ser atropelado, vi que infelizmente eu não estava muito machucado. Fui levado para um hospital onde fiquei oito dias. Depois disso, fui torturado em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Ilha do Presídio, em Porto Alegre (ilha esta que Carlos Araújo enxerga todos os dias da sua casa, às margens do Guaíba). Para cumprir o restante dos quatro anos de pena, fiquei mais três no Presídio Central. 


Depois que a pessoa passa por tortura, ficar na cadeia é o de menos. Embora ninguém queira estar preso eu tenho que confessar que esse período foi muito importante para mim. Porque eu era uma pessoa de esquerda que participava de todos os movimentos, mas nunca tinha parado para estudar. Na prisão, eu cheguei a estudar 15 horas por dia, sempre marxismo e alguns outros assuntos necessários para que eu pudesse entender aquilo que eu estava lendo. 


Outra pessoa de quem lembro muito é minha mãe, dona Marieta. Todos os presos políticos que tinham mães sabem que elas nos salvaram. Elas iam atrás dos filhos onde quer que eles estivessem. A minha mãe foi atrás de mim em São Paulo e no Rio de Janeiro sem nunca ter saído anteriormente do Rio Grande do Sul e só voltou para casa, quando eu voltei. Ela foi fundamental, era o meu pulmão fora da prisão.


No período da ditadura morreram muitos companheiros de todas as formas mais indignas possíveis, essa é uma marca negativa na história do Brasil, mas também teve muita gente que conseguiu sobreviver, avançar e adquirir mais consciência, esse é outro lado da moeda. Hoje, eu tenho uma visão crítica sobre a nossa atuação. Nós estávamos errados. Não era aquela a forma ideal de lutar, mas eu me orgulho muito de ter passado por isso, não renuncio a nada do que fiz, embora ache que foi equivocadamente. 


CTB-RS – O que o senhor acha do movimento sindical no Brasil?


Araújo – Eu acho que o movimento sindical está em crise por vários fatores. Primeiro, por ter sido interrompido pela ditadura e até que seja retomado na sua plenitude demora um tempo. Por outro lado, acho que por termos um governo progressista que em grande parte corresponde aos anseios do trabalhador, o movimento sindical assim como o social tem tido uma tendência de se encolher um pouco na luta dos trabalhadores brasileiros. Acho que os sindicatos não estão combativos, estão se tornando muito grandes e burocráticos. O sindicato tem que ir mais para a luta, mesmo a gente sabendo que está havendo um aumento do salário real e, com isso, o trabalhador esteja acomodado, os sindicatos poderiam estar nas ruas puxando as coisas para frente. Além disso, existem divergências profundas entre muitos sindicatos. A luta pela unicidade sindical é uma questão fundamental. 


Outra questão importante que está ai e que deveria haver maior participação dos sindicatos é a terceirização, em que as cooperativas estão tentando terminar com a relação de emprego, desviando o contato direto entre patrão e empregado para tolher ainda mais os direitos dos trabalhadores. Acho que falta uma atitude mais firme das centrais. A terceirização é um monstro que está para ser aprovado daqui há um ou dois meses e os sindicatos precisam ir às ruas lutar contra isso. Embora os sindicatos no Brasil tenham se fortalecido, ainda acho que deveria haver mais mobilização e que eles deveriam estar mais atentos às coisas que tem trazido prejuízo ao trabalhador. 


CTB-RS – O que o senhor acha que falta para que o sindicalismo se consolide no Brasil?


Araújo - Educar, alertar, pressionar, ir para rua. Já houve momentos em que eles eram assim. Durante o governo João Goulart, sem dúvida, foi o momento mais forte do sindicalismo brasileiro. Nessa época eles estavam sempre nas ruas reivindicando, apesar de não serem tão fortes como os de hoje, ainda assim havia uma forma de pensar diferenciada. Apesar de o governo saber o que está fazendo, o sindicato precisa ajudar.


CTB-RS – Uma das principais bandeiras de luta da CTB, e a principal a nível nacional neste segundo semestre, é acabar com o Fator Previdenciário. Com o conhecimento que o senhor tem do Governo Federal, seria possível essa conquista em breve?


Araújo – Primeiramente, eu quero parabenizar a CTB por ter colocado essa luta como tarefa principal neste segundo semestre. Acho que é preciso lutar para acabar efetivamente com o Fator Previdenciário. Mas tudo tem que ser feito num ritmo adequado. As condições estão sendo criadas para isso. Não é aceitável uma pessoa ganhar menos quando se aposenta. Agora essa questão implica em todo um conjunto de coisas. Sou da opinião de que o fator previdenciário tem que acabar, mas de um jeito que mais para frente não se tenha que voltar atrás. Senão nós vamos acabar como a Europa, em que cada vez mais o direito dos aposentados é menor. Temos que fazer aqui uma coisa bem feita, em que o salário seja pago de forma integral, mas que não acabe faltando dinheiro. Outra questão importante que fortalecerá essa luta da CTB é a mobilização do trabalhador, dentro da fábrica, que está diretamente ligado ao fator, mas muitas vezes não sabe disso. Não adianta apenas o aposentado lutar. Essa luta tem que ser levada em dois níveis: institucional e social.


CTB-RS - Outra luta da CTB é a de reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais. O senhor acha que estamos próximos de conquistar essa redução?


Araújo – Também acho importantíssima essa luta, além de ser totalmente justa, mas só será conquistada com muita luta. Acho que não podemos ficar esperando o governo ou o Congresso, porque assim será muito difícil que eles aprovem essa legislação. Tem que pressionar e tem que ter mobilização do trabalhador, greve. O trabalhador precisa utilizar os seus instrumentos para chegar a essa conquista. Essa redução implicará, também, no aumento de empregos no Brasil. Embora a situação de emprego no país esteja boa, é sempre bom ter mais emprego.


CTB-RS – Qual a sua visão sobre o governo Dilma?


Araújo – Acho que o governo da Dilma está muito bem. No momento, reorganizando a casa com essa crise internacional. Nesses últimos meses, o governo fez alterações fundamentais para poder crescer mais, através de investimentos em infraestrutura, energia, transporte, educação, entre outros. Criou as condições para que a partir de agora o Brasil comece a entrar num crescimento significativo. Eu aplaudo as medidas que o governo tem tomado, acho que ele está no rumo certo.


CTB-RS – O ser considera o governo socialista? 


Araújo – Não, ele não é socialista. Para se compreender o governo da Dilma e do Lula, antes é preciso compreender o primeiro governo do Getúlio Vargas. Em 1930, quando se fazia 40 anos que a escravidão havia acabado, recém estavam surgindo as primeiras indústrias no Brasil e o capitalismo estava engatinhando no país, os direitos sociais eram mínimos, a mulher não podia votar, não havia voto secreto. Então havia necessidade que o capitalismo se desenvolvesse no país. Getúlio tentou isso, fez a legislação trabalhista, criou a siderurgia nacional e a Petrobrás, fortaleceu o Banco do Brasil. Lula retomou esses ideais num nível superior e a Dilma está fazendo isso agora também: desenvolver o processo capitalista no Brasil, mas com uma participação popular. Durante primeira eleição na Inglaterra, Marx afirmou que o capitalismo iria trazer progresso até certo ponto e depois viria uma nova sociedade. Por isso que eu digo, quanto mais o capitalismo for desenvolvido, mais perto nós estaremos do socialismo. É no útero do capitalismo que se desenvolve a sociedade socialista. Só haverá socialismo quando todos os países estiverem desenvolvidos. 


CTB-RS – Na constituinte estadual entre 88 e 89, o senhor foi autor de uma emenda que instituiu um índice de 35% do orçamento para educação. Como o senhor analisa esse momento que a educação do Estado está vivendo e o não cumprimento do piso do magistério?


Araújo – Essa é uma crise que vem de longe e estourou agora com toda a sua plenitude. O governo tem que meter a mão nisso. Acho que o Tarso está tentando fazer algo, dando explicações que são fundamentais, mas elas têm que vir acompanhadas de alguma coisa. Apenas educação não basta, ela precisa vir junto com saúde e alimentação. Em primeiro lugar para mim, só existe educação real através da escola integral. Ela é a base para o desenvolvimento da educação. O jovem precisa ter seu tempo de lazer preenchido com atividades dentro da escola para que não queira sair dali e ir às ruas, acabando assim se envolvendo com drogas. Mas para isso necessitamos de bons professores que precisam receber uma remuneração digna. 


CTB-RS – A questão do provável golpe no Paraguai é um sinal de rearticulação das forças reacionárias na América Latina? 


Araújo – O que aconteceu no Paraguai foi evidentemente um golpe, mas organizado, não pelas forças reacionárias, e sim, pela direita paraguaia. Aconteceu porque o país tem a maior população latifundiária da América. 75% das terras são de latifundiários e havia uma pressão muito forte do movimento sem-terra para tomar essas terras. Vários conflitos ocorreram em que muitas pessoas foram mortas. Então acredito que foram esses latifundiários que promoveram o golpe. O atual presidente é representante deles. O golpe foi dado para que os latifundiários pudessem manter os benefícios deles. Foi algo muito local, não vejo como algo que tinha sido forçado pelo capital inicial.


CTB-RS – Quais são as suas expectativas para o desempenho e as atuações do ministro do Trabalho, Brizola Neto?


Araújo – O Ministério do Trabalho está, desde a época da ditadura, descaracterizado. Antes os trabalhadores tinham uma participação ativa lá dentro. Hoje ele está esvaziado. Acho que a Dilma colocou o ministro Brizola Neto lá no sentido de reerguer o ministério. Ele entra com uma grande responsabilidade. Além disso, seu tio-avô, João Goulart, foi o melhor ministro que tivemos, foi um governante que fez do ministério do trabalho o protagonista da história.


Aline Vargas - CTB-RS