Inque Schneider é coordenadora das Mulheres Trabalhadoras Rurais da Fetag-RS.

CTB-RS – Sobre as eleições municipais de 2012, como a senhora observou a atuação das mulheres neste último período eleitoral?


Inque – Nessas últimas eleições, nós aumentamos o número de vereadoras no nosso Estado. Foi possível observar, também, que estamos avançando no espaço político, com muita garra, luta e sacrifício. Contudo, tenho a impressão que nos municípios menores existe mais facilidade das mulheres se elegerem do que nos grandes centros. Isto porque elas se tornam mais visíveis quando desenvolvem um trabalho dentro das comunidades em que praticamente todos se conhecem.


É importante lembrar que as mulheres veem à política por dois motivos. Uma parte, porque já tem uma consciência política formada e a outra por força da lei, afinal nenhuma chapa pode ser registrada se não apresentar 30% de candidatos femininos. Dessa forma, nós tivemos candidatas muito conscientes, que vieram para a luta, conquistaram seu espaço, como também tivemos uma pequena parcela que veio simplesmente para o cumprimento da lei. Assim, os resultados foram os mais diversos.


CTB-RS – Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apenas 14,1% dos vereadores eleitos são mulheres, qual a sua percepção com relação a essa realidade?


Inque – Acredito que precisamos de uma maior visibilidade, lutar mais pela ocupação do nosso espaço e buscar uma formação política. Contudo, acho que nós já alcançamos um bom crescimento, visto que há 80 anos nem sequer tínhamos o direito ao voto.


CTB-RS – A senhora acha que o fato da mulher, muitas vezes, ter que conciliar o trabalho doméstico com o profissional prejudica sua participação nas eleições?


Inque – Em minha opinião sim. Porque a mulher por ser mãe, esposa, dona de casa e ainda trabalhar fora muitas vezes, ela não se sente pronta para cumprir com todas essas tarefas e ainda ir às ruas fazer campanha. Diferente do homem, ela tem o seu olhar voltado à família. Além disso, quando o sexo masculino vai para a política, segue encontrando a comida pronta, a mesa posta e a roupa lavada. Conforme a situação da mulher candidata, quando chega em casa ainda precisa fazer tudo isto. Ela tem que cuidar de si, da família e da campanha política. Acaba sendo uma tripla jornada de atividades.


Apesar das dificuldades, acredito que estamos conseguindo fazer isso muito bem. Todas as mulheres com quem conversei, tenham sido elas eleitas ou não, me dizem que é uma grande faculdade participar de uma campanha política. Aprende-se muito e se for preciso, repete-se tudo novamente.


CTB-RS – Atualmente o número de eleitoras é maior que o de eleitores, na Capital, e mesmo assim as mulheres ainda representam menos de 15% na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. A senhora acha que o tabu de que mulher não vota em mulher existe e se reflete nessa situação?


Inque – Não concordo muito com isso. Já fui vereadora por duas legislaturas [na cidade de Selbach (RS), entre 1986 a 1990 e 1990 a 1994] e sei que a maioria que votou em mim eram mulheres. Então, acredito que a situação deve ser encarada assim: mulher vota em mulher competente. Talvez esse tabu exista apenas em determinadas regiões, mas nas situações que eu conheço o voto feminino tem base na competência e na ficha limpa do candidato independente do sexo. Dificilmente a mulher vota em quem ela acha que não será um bom administrador ou legislador. Também acredito que as mulheres, assim como o público em geral, não estão seguindo mais os partidos políticos e sim o candidato.


CTB-RS – Como a senhora analisa a presença da mulher na agricultura e na pecuária no Rio Grande do Sul, atualmente?


Inque – As mulheres do campo estão muito bem inseridas em suas propriedades rurais. Elas acompanham seus maridos e quando estão sozinhas assumem o comando. A grande porcentagem da mulher do campo administra em conjunto com o seu marido o dinheiro conquistado com o trabalho de ambos. Elas estão participando da organização da propriedade. Eu venho de uma região da bacia leiteira onde a mulher faz o trabalho constantemente junto com os filhos e com o marido. Percebo que as mulheres estão encabeçando as agroindústrias, além de seguir cuidando da casa.


CTB-RS – Em sua opinião, qual o principal desafio que a mulher rural enfrenta?


Inque – Acho que hoje o grande desafio é permanecer no meio rural. Há uma luta para que ela possa sobreviver e ter uma vida digna no campo. A mulher sempre quer o bem estar da família, por isso, um dos seus desejos mais íntimos é ver seus filhos felizes. Assim, apesar de muitas conviverem com a situação de ver seus filhos deixando os lares, a maioria fica na propriedade.


Muitas vezes acontece que se o filho não tem uma boa instrução e uma boa formação, ele vai para a cidade, trabalha por um salário mínimo e no final de semana ele volta para casa, traz a roupa suja e na segunda-feira retorna à cidade, levando um rancho que é o salame, o pão, o leite. Sem esse respaldo, o salário é insuficiente para pagar o aluguel e ainda comprar comida.


Para solucionar o problema da sucessão rural enfrentado atualmente no campo, estamos lutando para que se coloque uma vaca a mais na propriedade, assim se possibilitaria uma renda melhor que evitaria a caminhada do jovem para a cidade. A educação tem contribuído muito para que o jovem deixe o campo, afinal a vida toda ele é preparado para isso na escola. Aprende que a cidade é um lugar bom através dos livros didáticos e os pais, muitas vezes, falam para seus filhos que é importante o estudo porque na propriedade rural se sobrevive com dificuldades.


Outro motivo, ainda, que leva o jovem a deixar o campo é a má divisão de terras feita no meio rural. Assim, muitos ficam sem terra. A reforma agrária, que deveria ter sido feita há 50 anos, é responsável por isso. Hoje, temos um campo com poucas pessoas. Estamos lutando para que as escolas permaneçam para que se estacione um pouco esta questão da fuga do jovem do campo para a cidade.