Ricardo Franzoi é economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e auxiliou na formulação do documento, entregue ao Governo do Estado, sobre reajuste para o piso regional de 2013.

CTB-RS – Os trabalhadores gaúchos tiveram perdas no piso regional, nos últimos governos, que ultrapassam os 20%, ao que se deve essa realidade?


Franzoi – Na verdade eu não considero isso uma perda. Nós tínhamos uma referência entre o piso regional e o salário mínimo e a justificativa para isso era que a economia do Rio Grande do Sul, por ter um patamar diferente das outras economias, não está em primeiro lugar, mas também não está em último, então a existência do piso regional vem no sentido de olhar a riqueza ou a produtividade do Estado gaúcho, colocando assim um valor que seja diferenciado e superior ao salário mínimo nacional. 


O que aconteceu nesse período foi que o salário mínimo brasileiro teve mais aumentos do que o piso regional e isso fez com que surgisse essa diferença entre ambos diminuísse. Se é para existir um piso regional ele tem que manter certa diferença do salário mínimo, a não ser que se considere que esse salário mínimo de R$ 622,00 [valor atual do salário mínimo nacional] seja suficiente para atender as necessidades básicas dos trabalhadores. 


Contudo, nós do DIEESE, entendemos que esse valor ainda está longe do ideal. As necessidades básicas dos trabalhadores e de suas famílias não estão sendo minimamente atendidas. O salário mínimo ainda tem que crescer muito. O DIEESE calcula o salário mínimo hoje, para que o trabalhador e sua família tenham as necessidades básicas que estão na Constituição atendidas, no valor de R$ 2.200,00. Assim, pode-se perceber que o piso regional e o salário mínimo estão muito longe do ideal, devendo assim, ser reajustado.


CTB-RS – O senhor acha que o Brasil, mais especificamente o RS, será atingido pela crise mundial?


Franzoi – A crise mundial iniciou em 2008 e foi amenizada pelas políticas intencionais de governo que foram adotadas pelo presidente Lula e por políticas que foram reivindicadas pelas centrais sindicais. Isto com o objetivo de desenvolver o mercado interno no Brasil e melhorar a distribuição de renda, porque nós somos a 7ª economia no mundo e estamos em último lugar em distribuição de renda. Essas medidas que foram adotadas naquele período nos ajudaram a não sofrermos tanto. Assim, a crise virou para nós uma marolinha. Apesar de não crescemos em 2009, nosso crescimento foi de 10% em 2010. 


A questão toda é que no ano passado (2011), houve uma adoção de medidas econômicas macroprudenciais feitas por parte do Governo Federal que se juntaram a crise mundial que se agravou. Essa combinação jogou o nível de atividade econômica no Brasil para um nível inferior. O ano de 2012 ainda está sofrendo com esse impacto, apesar do governo estar tentando reverter isso com a redução da taxa de juros e ter voltado a dar incentivos, seguimos enfrentando dificuldade de apostar no mercado interno. Nós não estamos tendo o mesmo resultado que tivemos em 2009, porque a crise internacional se agravou. As economias da Europa e dos Estados Unidos não vem crescendo, isso faz com a nossa economia cresça menos, mas ela segue crescendo.


O Rio Grande do Sul sofre com o impacto porque parte da nossa produção está ligada a indústria nacional, temos uma participação no setor agropecuário muito grande, diferente dos outros estados. Existe, ainda, mais um problema. Nós dependemos muito de um produto que é a soja, que está sempre variando conforme o preço internacional, a taxa de câmbio e do clima, e às vezes esses três fatores se combinam para uma desgraça ou para um resultado muito bom. Então o setor agropecuário que não ajudou nada este ano, vai ajudar muito no ano que vem. Já a indústria está crescendo de lado e depende dos resultados do segundo semestre que ainda não se sabe como vai ser.


As políticas que o governo está adotando estão retirando travas colocadas por ele mesmo no ano passado, quando se achava que o nosso crescimento seria enorme. Agora temos que ver quais serão os efeitos dessas políticas adotadas de investimento em infraestrutura. Como isso irá ajudar no crescimento da economia. Além disso, a taxa de desemprego é menor do que o ano passado. A ocupação está crescendo menos, mas segue crescendo e o que é muito importante, o salário médio está crescendo, ou seja, as pessoas que estão no mercado de trabalho estão com um salário em níveis reais superiores ao do nível passado. Isto dá uma garantia de consumo por mais algum tempo e ajuda a economia crescer. 


CTB-RS – Em tua opinião como economista, qual é a importância de se manter o piso regional?


Franzoi – O piso regional é um instrumento que vem resolver vários problemas. Um deles é o da distribuição de renda, ou seja, o que se poderia resolver via negociação coletiva nós temos um desequilíbrio nas mesas de negociação, porque existem sindicatos que são mais fortes e outros que são mais fracos. Então, às vezes, se consegue um piso bom onde se tem uma estrutura maior ou se trata de um setor que está indo melhor. O piso regional vem na tentativa de igualar isso. Ele acaba ajudando aqueles sindicatos que não tem uma força de negociação. 


O segundo problema é os desequilíbrios regionais. O RS tem regiões que não crescem e outras que crescem muito. Por exemplo, Caxias do Sul e a região da fronteira tem um desequilíbrio muito grande. O piso ajuda nisso também. Porque ao melhorar o salário de determinada região, se está criando uma demanda potencial que ajuda a economia a se dinamizar. O piso regional ajuda na criação de um mercado de consumo o que estimula as empresas a investirem e isto resulta em um ciclo virtuoso. 


Em terceiro lugar, ele contribui com a melhora da competitividade do Brasil em relação à concorrência internacional, incentivando a produção e para isso é necessário contratar pessoas qualificadas que só vão às empresas que pagam bons salários, ou seja, nós temos que aumentar a competitividade via melhoria do produto e não reduzindo salários.