Ricardo Franzoi é economista e coordena o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no Rio Grande do Sul

Abaixo, leia comentários de  Franzoi sobre temas polêmicos:


Inflação


"A inflação está alta, mas está controlada. Ano passado, subiu bastante entre maio e junho, depois caiu e voltou a subir um pouco no início do ano. O motivo disto, que acho positivo, é que uma das políticas econômicas adotadas foi de desvalorizar o câmbio. Isto foi, justamente, o contrário do que o governo FHC fez que provocou essa crise na indústria que está tendo reflexo agora, já que diminuiu muito a nossa competitividade com relação aos produtos internacionais já que o nosso câmbio estava muito valorizado. O objetivo de desvalorizar o real com relação ao dólar é tornar a nossa economia mais competitiva. 


Desde 1994, estamos com o real sobrevalorizado e isto destruiu as cadeias produtivas da indústria brasileira. A consequência imediata disso é a subida da taxa de inflação, porque os produtos ficam mais caros, em reais. O que outro governo tentaria fazer é jogar o Brasil numa recessão e diminuir fortemente o consumo. Por esse ângulo, conclui-se que a medida adotada pelo Governo Dilma foi altamente positiva, no sentido de que desvalorizou o câmbio quase 30% e conseguiu manter a inflação em 6,5%."


Desemprego


"Há 12 anos, existiam 26 milhões de trabalhadores assalariados do mercado formal, hoje são 50 milhões. Apesar de alguns especialistas fazerem previsões de que a taxa de desemprego voltará a crescer, a perspectiva de que isso ocorra vai depender do governo que assumir no ano que vem. Isso só será confirmado se o país entrar numa recessão. Ou seja, se tivermos um governo que aposta que a taxa de juros vai crescer e valorizar o câmbio, o quadro que se apresentará será sim o desemprego. Mas isso é justamente o contrário do que o governo atual acredita, então se com essas eleições a situação não se modificar, é provável que a taxa de desemprego siga semelhante. Também é preciso ter cuidado com que o ouvimos e lemos por aí, porque muitas previsões são negativas porque há interesses obscuros por traz. 


Vi uma dia desses um cartaz feito por desempregados norte-americanos que dizia ‘Quando os salários sobem é inflação, quando os ricos ganham mais dinheiro é crescimento’, acho que essa frase é bastante esclarecedora e serve muito para o Brasil também. Outro motivo que justifica o aumento da taxa de desemprego é que a renda das famílias está melhor e, assim, por exemplo, um pai pode manter o filho apenas estudando sem precisar obrigá-lo a trabalhar. Isso, na maioria das vezes, diminui a procura. 


No Rio Grande do Sul, o atual Governo conseguiu fazer da taxa de desemprego a menor da história do estado, hoje ela está em 6%. Por conta disso, houve um crescimento dos postos de trabalho qualificados."


PIB


"Tivemos trimestres negativos devido a desaceleração econômica, crise na Argentina que é um dos nossos principais importadores, principalmente de produtos industriais. Tivemos também a questão do carnaval tardia, Copa do Mundo e eleições, ou seja, três acontecimentos que acabaram na conjuntura diminuindo o número de dias trabalhados. Além disso, não podemos esquecer que o mundo vive uma crise que não se resolve. Então, é um conjunto de acontecimentos que fazem com que o Brasil tenha desacelerado. Importante registrar também que tínhamos crescido muito nos últimos tempos, estávamos muito acima dos outros países e, assim, é normal que, diante de todos esses acontecimentos, haja uma estagnação, mas isto não significa que estamos diante de uma crise."


Crise no Brasil


"Temos uma crise fabricada, que caso não seja desconstruída se tornará real. Boa parte dessa crise foi fabricada com base numa percepção dos acontecimentos ocorridos em junho e julho do ano passado de que não haveria Copa e que o governo havia perdido o controle da população, assim ficaram todos com o pé atrás, só que isso não aconteceu e os investimentos foram segurados. Mas passando esse período eleitoral, esse quadro vai se dissolver."


Bovespa


"A bolsa está caindo por pura especulação. Se lembrarmos de 2002 quando Lula estava para ganhar no primeiro turno, a bolsa caiu e o dólar chegou a R$4,00, que era uma especulação do mercado financeiro dizendo que se o Lula ganhasse, todos iriam embora. O que se viu é que tudo era especulação para que o lado que tinha uma preocupação mais forte com as questões sociais não assumisse. Assim, provavelmente, o que vai acontecer após as eleições é que a bolsa volte a crescer."


Piso Regional


"A política permanente de valorização do piso regional é importante para garantir que ele não será extinto, independente do governo que assumir. Afinal, dentre as suas várias importâncias, existe o fato dele servir para elevar o nível das negociações coletivas, por homogeneizar os salários iniciais de todas as categorias, porque sabemos que hoje elas têm diferentes poderes de barganha e como o piso é um salário inicial, acaba que essas categorias que tem o menor poder de barganha acabam fechando salários muito baixos. O piso regional dá essa garantia, porque incentiva uma distribuição salarial mais equânime no estado. 


Em segundo lugar, evita que a empresa mude de município em busca de um sindicato mais fraco. Além disso, o piso melhora a distribuição de renda geral e faz com que outros salários subam acima da inflação.


Precisamos de uma política de valorização do piso regional acima da inflação. Porque se essa política que está havendo agora de crescer conforme o PIB existisse desde a época que ele foi criado (2001), hoje ele estaria três vezes maior do que o valor atual. Possivelmente, estaria próximo do salário considerado ideal pelo Dieese (R$2.860,00). O governo que mais prejudicou que essa valorização se mantivesse foi o da Yeda que quando deixou o cargo de governadora a diferença entre o piso regional e o salário mínimo nacional era de apenas 7%, enquanto que quando o Olívio Dutra o criou era de 28%. Provavelmente, se tivéssemos mais um ano de governo Yeda, o piso regional passaria a ser igual ao salário mínimo."