Vicente Selistre é vice-presidente nacional da CTB, presidente do Sindicato dos Sapateiros de Campo Bom e, recentemente, assumiu como deputado federal o lugar da candidata à prefeitura de Porto Alegre, Manuela dÁvila.

CTB-RS – Há quanto tempo o senhor está engajado com a luta do trabalhador?


Selistre – Eu iniciei na luta sindical, formalmente, em 1986 fazendo parte da direção do Sindicato dos Sapateiros de Campo Bom. Estive presente em diversas manifestações, até que em 1990, participei de uma grande greve, com cerca de 90% de adesão da categoria. Tornei-me presidente interino do sindicato em Campo Bom, depois fui eleito, reeleito e exerço esse cargo até hoje.


No início de 2007, participei de um grande debate com um companheiro do Partido Comunista do Brasil, um sindicalista do Partido Socialista Brasileiro e trabalhadores rurais. Assim no final deste mesmo ano, fui fundador e vice-presidente da Central dos Trabalhadores e trabalhadoras do Brasil (CTB), que estamos militando até hoje.


CTB-RS – Como presidente do Sindicato dos Sapateiros de Campo Bom e vice-presidente nacional da CTB, quais eram os seus principais objetivos e desafios?


Selistre – Nós sempre tivemos uma orientação de luta social e sindical baseada na democracia, no classismo e na autonomia do movimento sindical. Temos uma preocupação da luta da classe trabalhadora como um todo. No Sindicato dos Sapateiros, nós tínhamos as nossas lutas econômicas e sociais, como a elevação do piso salarial, melhoria do auxílio creche, horas extras, adicional noturno, entre outras.


No viés da CTB, esses nossos objetivos foram ampliados. A Central já nasceu com essas bandeiras de luta e ainda veio com outras, como o fim do fator previdenciário, a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, a valorização permanente do salário mínimo, a unicidade sindical, a força da negociação coletiva, a manutenção da justiça de trabalho como uma orientadora dos conflitos da classe trabalhadora. Bandeiras, que apesar de terem sido definidas na década de 80, 90, ainda são muito atuais.

 

CTB-RS – Por ser presidente do Sindicato dos Sapateiros de Campo Bom, o senhor tem salientado a importância de defender o setor coureiro calçadista. Em sua opinião, o que pode ser feito para melhorar a categoria?


Selistre – O setor coureiro calçadista vive momentos de instabilidade, às vezes estamos muito bem e, logo em seguida, muito mal. Então, nós recebemos uma orientação do nosso conselho geral para defender o setor produtivo nacional. É o que recentemente a CTB nacional fez, nas ruas de Porto Alegre, contra a desindustrialização do Brasil. Todo o país que quer gerar emprego e distribuir renda deve lutar por isso. O setor calçadista é um dos que mais gera emprego por confeccionar produtos manufaturados. Então, nós estamos na luta para proteger os empregos dentro das indústrias.


Existem outras questões prejudiciais que são relacionadas a acordos internacionais. Há cerca de três anos, nós tivemos o caso da Azaléia que se transferiu para a Argentina. Recentemente, Schmidt Irmãos encerrou suas atividades em Campo Bom e agora está atuando na Nicarágua. Isso faz com que medidas tenham que ser tomadas. Precisamos criar uma defesa permanente para a indústria nacional. Como socialistas, nós defendemos que o estado seja forte na economia para que haja um desenvolvimento justo da humanidade.


CTB-RS – Quais são os maiores desafios ou dificuldades que o senhor está enfrentando nessa nova fase, como Deputado Federal?


Selistre – O mundo do trabalho na Câmara Federal tem grandes dificuldades de evoluir. A discussão das 40 horas acontece há mais de vinte anos, a questão da representação no local de trabalho está na nossa Constituição há 24 anos e ainda não temos nada. Além disso, o mundo sindical também luta pelo custeio. Atualmente, muitos sindicatos estão com dificuldade de se manter.


Temos, também na questão da unicidade diversas ameaças paralelas para pulverizar a criação de sindicatos. Outras questões que preocupam é a da terceirização fraudulenta e a do fator previdenciário que prejudica, há 14 anos, os trabalhadores que pagam a sua contribuição de forma correta e tem o seu ganho de aposentadoria reduzido em mais de 40% para as mulheres e mais de 30% para os homens. Tudo isso faz da experiência de representar a luta dos trabalhadores, seja dentro ou fora do Congresso Nacional, um grande desafio, mas estamos lá para levar propostas e fazer avançar a luta popular e dos trabalhadores.


CTB-RS – Quais serão seus próximos projetos, agora como deputado federal?


Selistre – Já tenho cinco projetos tramitando na Casa. Pequenas coisas que, se saíssem do papel, ajudariam a classe trabalhadora. Um deles versa sobre a compensação no horário de trabalho que ainda é permitida por dez horas. A nosso ver, a compensação deve passar por um reajuste proporcional. Outro projeto versa sobre o motorista profissional que, às vezes, vai renovar a sua carteira ou o documento do seu carro e passa por situações em que tem o veículo apreendido por ter apenas o comprovante de pagamento. Isso é um absurdo.


Eu estou agora com o pensamento de apresentar um projeto nos próximos meses, relativo à maior fiscalização. Não há contingente humano no Ministério Público do Trabalho para fiscalizar as empresas e nós precisamos ter a legislação trabalhista respeitada no país. Há muitas pessoas que não tem registro na carteira e trabalham em horários que beiram a escravidão. A representação no local de trabalho pode solucionar esse problema. Um bom exemplo disso é o Sindicato dos Metalúrgicos de Caxias do Sul, que tem uma diretoria mais ampliada conseguindo contemplar essa representação, mas são raros os sindicatos que tem isso.


A nossa constituição de 88 defende que todas as empresas com mais de duzentos trabalhadores será eleito um trabalhador para a representação direta dos trabalhadores. Mas isso ficou na letra morta da lei até hoje. O Fórum Nacional do Trabalho discutiu essa questão, mas os empresários não aceitaram acordo e nada avançou. A CTB sabe o quanto é importante que nós tenhamos a representação no local de trabalho, o sindicato é lá no chão de fábrica, como a gente costuma dizer.


Queremos, também, no futuro criar comissões de fábrica, que irão acompanhar toda a situação administrativa e econômica da empresa para que quando formos discutir questões como a do reajuste salarial, estejamos a par dos ganhos e despesas da empresa. Nosso objetivo, agindo dessa forma, é criar um círculo virtuoso em que todos respeitem a lei trabalhista e previdenciária.


CTB-RS – O senhor tem diversos objetivos agora como deputado federal, mas existe um, que caso não seja acertado ao longo do seu mandato, seria motivo de frustração?


Selistre – Nós queremos estabelecer o fortalecimento da autonomia do movimento sindical, passando por uma segurança jurídica do custeio dos sindicatos, pela representação no local de trabalho e por lutas que preservem o direito do trabalho, contrárias a terceirização e ao fator previdenciário e em prol das 40 horas semanais. Meu principal objetivo é que a gente consiga – com atuação na tribuna, nas comissões, com a CTB, com os demais deputados comprometidos com essa causa – fazer com que esses assuntos venham à pauta e sejam discutidos. Isso, para nós, já será um grande ganho na luta dos trabalhadores brasileiros. Além disso, dentro de toda essa minha história no movimento sindical, eu tive a oportunidade de ser indicado agora, pelo partido, com o acordo do PT, como titular da Comissão de Trabalho, de Administração e de Serviço Público da Câmara Federal, na CPI do Trabalho Escravo e na Comissão Especial que vai dar parecer sobre a PEC da Igualdade dos Direitos Trabalhistas, que é a grande luta dos trabalhadores domésticos. Fico feliz com todas essas oportunidades, mas há muito trabalho pela frente.