O presidente da Fiergs entrou na vala comum da cruzada atual contra os trabalhadores. Em artigo no Jornal Pioneiro, 16/10, chamou os direitos trabalhistas de “privilégios adquiridos”, os quais ele lamentou como supostas “obrigações” dos empresários.


Na contramão da história, imagina uma volta ao capitalismo selvagem do século XIX na Inglaterra, quando as jornadas chegavam a 16 horas diárias, não havia descanso semanal ou férias, o trabalhador, inclusive crianças, sequer adoecerem podiam. Proletários assim se os designavam, numa alusão a que, além de explorados como animais, o sistema lhes destinava apenas o direito a procriar, isto é, gerar prole, filhos.


Quando em 1943, Getúlio Vargas cria a CLT, partia de visão estratégica, assegurava direitos mínimos aos trabalhadores, enquanto industrializava o país. Dessa época a 1980, a economia nacional foi a que mais cresceu no mundo. Virando a página num país com séculos de escravismo, a modernização permitiu ao Brasil superar amarras da monocultura agrário-exportadora, chegando a indústria nacional a um nível de capitalismo de desenvolvimento mediano, o maior do Terceiro Mundo de então.


Na Inglaterra, como no Brasil, a base econômica, material, que permitiu a emergência de leis trabalhistas foi a incessante e vertiginosa elevação da produtividade do trabalho. Ao lado disso, o clamor social e muitas lutas levaram a conquistas civilizatórias.


Setenta anos depois, a produtividade elevou-se enormemente. A quantidade de mercadorias que o trabalhador em média produz atingiu níveis inimagináveis. Estão, pois, dadas as condições materiais para novos e mais amplos direitos dos trabalhadores.


Além disso, a elevação da produtividade decorre do esforço de vários atores sociais, cientistas, pesquisadores, trabalhadores e técnicos; não é, portanto, legítimo que apenas os patrões se beneficiem dos enormes excedentes que ela propicia.


Mas, empresários que só pensam no imediato, acreditam que só elevam lucros com redução de salário e direitos. Preconizam como única saída para a crise mais arrocho sobre os trabalhadores. Só faltou acusarem os trabalhadores de "indolentes". Cegos pelo individualismo, não percebem ou calam-se diante dos principais entraves ao desenvolvimento, como os juros de 14,25% aa, os R$ 700 bilhões/ano que o país paga aos banqueiros, ou privilégios a setores do aço e cimento que impactam fortemente nos custos empresariais.


É grave e perigoso o processo em curso de querer aproveitar-se da crise para impor perdas permanentes aos trabalhadores. Todo o dia surgem novas investidas contra a CLT, como a terceirização sem limites e o negociado acima do legislado, ambas retrocessos civilizatórios.

Perigoso para o trabalhador e para o país, que definhará seu mercado interno e as empresas perderão escala e eficiência.


Ao contrário, o movimento sindical moderno defende um novo projeto nacional de desenvolvimento, de sentido estratégico, que fortaleça a produção nacional, valorize o trabalho e seja capaz de unir empresários e trabalhadores, cientistas e intelectuais e descortinar novos horizontes para o país.

Guiomar Vidor, Presidente da CTB-RS