Por João Leal Vivian, engenheiro civil, diretor de Negociações Coletivas do SENGE e pesquisador do Quadro em Extinção da CIENTEC.

Enfrentar, evitar e conviver com o Covid-19 é um desafio que afeta a todos, indistintamente.

Neste cenário, lembro da frase de um colega cujas palavras suscitam diversas reflexões e nos remetem ao abandono e à desolação da estrutura da CIENTEC, a Fundação de Ciência e Tecnologia gaúcha: “O silêncio dos laboratórios tem que atender o ruído das ruas e dos campos. Calar o plantio do conhecimento é condenar ao fracasso a colheita do progresso social e econômico”.

Como técnicos da extinta Fundação, meus colegas e eu não temos as respostas a todas as perguntas que recebemos a todo momento. Podemos sim afirmar, sem nenhuma dúvida, que poderíamos estar contribuindo, por exemplo, com a produção de álcool 70%, destilando as bebidas apreendidas pela Receita Federal e cedidas como doação. Poderíamos promover testes de tecidos, papel filtro e outros produtos para determinar quais materiais são adequados ou não à fabricação de máscaras de proteção. Ensaios avançados de certificação de respiradores pulmonares? Sim. Colaborando com testes de detecção de vírus e com pesquisas com drogas? Possivelmente sim!

É difícil precisar os limites da atuação de uma instituição injustificavelmente paralisada desde o início de 2018. No entanto, afirmo que o patrimônio científico do Estado gaúcho, produzido nos últimos 77 anos através da sinergia entre a reorganização do parque de laboratórios e a capacidade intelectual de gerações de técnicos, pode ser imediatamente resgatado para poder contribuir na preservação da vida e assim vencermos essa “guerra”.

No início de 2019 apresentamos ao Governo e à sociedade do RS um projeto intitulado “Aproveitamento das estruturas das fundações e serviços de interesse do Estado pela UERGS - uma oportunidade para o desenvolvimento tecnológico, econômico e social do Rio Grande do Sul”. O atual momento de pandemia, no qual diversas instituições públicas estão demonstrando seu potencial, fortalece a defesa dessa audaciosa proposta. Nela, indicamos tecnicamente a potencialização e aperfeiçoamento das atividades de ensino, pesquisa e extensão, com o aproveitamento do patrimônio público, material e imaterial, das Fundações do Estado pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS).

Não seria esse o momento adequado para essa “nova UERGS” entrar em campo e demonstrar para a sociedade o que é capaz? A percepção que fica a cada dia perdido na tomada de decisão dos gestores em oferecer essa oportunidade para uma instituição pública potencializar sua “atividade fim” (ensino, pesquisa e extensão), configura um grave e crescente retrocesso, que em breve, não poderá mais ser corrigido, impactando por diversos flancos toda a sociedade gaúcha.

Por trás da ciência existem grandes resultados intangíveis. Na ciência, o tempo pode ser medido em anos e não em segundos como o é na tecnologia, sendo que tais resultados serão potencializados em momentos complicados, com este em que vivemos. Desejamos desacelerar na importância da discussão sobre a ciência ou continuaremos debatendo indústria 4.0, economia do compartilhamento, tecnologia? Ou seria mais prudente retomarmos alguns conceitos e talvez pensarmos esses conceitos com sinergia? Sem reduzir, por óbvio, o conceito de ciência a uma mera equação receita x despesa, mas sim colhendo frutos de subvenções econômicas e resultados intangíveis. A UERGS precisa de uma chance. Temos uma oportunidade única de minimizar erros e potencializar o futuro.