Todos os dias, o presidente envia mensagens, nas quais demonstra estar em guerra permanente. Os discursos de Bolsonaro mobilizam sua tropa de apoiadores fanáticos e procuram desestabilizar emocionalmente e dividir sua oposição. Até agora ele tem sido eficiente, pois seu único objetivo é se manter na cadeira presidencial. Embora represente hoje somente 30% da população que o apoia, consegue defender seu mandato repleto de escândalos e determinar a pauta para os 70% restantes da população. Por que há fortes chances de continuar tendo êxito?

Sua boa chance de conseguir não ser derrubado, deve-se principalmente ao fato de que, enquanto ele age na lógica da guerra permanente, boa parte da oposição procede na linha da disputa eleitoral convencional em tempos de paz, que se afirma na construção de projetos viáveis eleitoralmente, comportando-se como em tempos pacíficos, onde candidaturas podem ser construídas de acordo com táticas e ideias distintas ( este é o principal papel dos partidos, agir nessa construção). Trata-se de uma leitura distorcida do cenário atual, pois numa conjuntura de guerra, construir projetos eleitorais é bem menos do que se espera da política. Sem desmerecer as eleições, que são parte importante da democracia, elas não são o único foco, sobretudo nesse momento.

Quando os mais altos valores da sociedade estão sob risco, alianças eleitorais são menos importantes do que os acordos para defender tais valores. Mesmo que no plano das palavras, a oposição diga constantemente (chegando a ser cansativa) que Bolsonaro ameaça a vida e a democracia, ela também age de maneira contraditória. Parece que diz palavras nas quais não acredita. Bolsonaro é mesmo uma ameaça fascista? É mesmo um genocida? Será? As palavras de quem opõem-se a ele, dizem que sim, mas, os atos dizem que não.

Se a oposição acredita mesmo que um presidente ameaça a democracia e a vida, existe algo mais importante do que estes valores? O que é mais importante que a democracia? O que é mais importante que a vida? Parecem que existem outras prioridades no lugar destes valores e afirmar projetos eleitorais sejam mais importantes. Cobrar autocríticas de possíveis aliados parece ser a prioridade.

Queremos salvar a vida e a democracia? Sim, mas só se o PT fizer uma autocrítica de seus erros. Sim, mas só se Ciro pedir desculpa porque foi para Paris no segundo turno. Sim, mas só se Felipe Neto se desculpar porque apoiou o golpe. Sim, mas eu não me misturo com liberais, prefiro me manter puro nas minhas convicções. Sim, mas eu não ando com o Brasil 247 que é gabinete do ódio do PT. Sim, mas eu não ando com ‘coroné’ que foi da Arena...

A oposição a Bolsonaro é múltipla e diversa, pois reflete a diversidade de 70% da população que não o apoia. A principal divergência dessa oposição é no campo econômico, pois há um bloco liberal, representado pelos partidos de centro-direita, que são apoiadores da política econômica, mas rechaçam a escalada autoritária e o negacionismo genocida de Bolsonaro. E há um bloco de vários matizes de esquerda, que repudiam tanto a agenda econômica, quanto o conjunto das ações do governo.


Por mais que exista antagonismo entre estes dois blocos, toda essa diversidade parece concordar que a vida e a democracia são valores importantes. Portanto, formar uma frente ampla de salvação do país em torno da vida e da democracia seria possível e potente o suficiente para pôr um término a um governo que produz tantas ameaças e perdas. Mas, essa frente não se forma, afinal, a confundem com aliança eleitoral. Grave equívoco.

Independe quais palanques estarão Lula, Ciro, Dino, FHC ou Alcolumbre em 2022. Não se desmerece inclusive a importância do embate eleitoral entre projetos antagônicos. Mas, importa mais é que hoje se unam para defender a vida e a democracia. A vida continuará depois da queda de Bolsonaro, mas continuará com democracia. O que permitirá, inclusive, que a luta pelos rumos da economia ocorra. O que precisa ficar claro é que Bolsonaro está em vias de inviabilizar que, mesmo essa disputa, ocorra. Como pode se disputar a economia sem vida e sem democracia?

Muitos dizem que a democracia já foi golpeada com o impedimento golpista que derrubou a presidenta Dilma e a farsesca trama que prendeu o ex-presidente Lula, impedindo-o, enquanto candidato no topo da preferência, de concorrer em 2018. Seus direitos políticos cassados demonstrariam que a democracia já foi solapada, já foi perdida. Embora concorde serem gravíssimos tais fatos, afirmo que ainda está em vigência a democracia e ela salva vidas hoje. Se não fosse a democracia, o Congresso Nacional não teria derrotado o governo no debate do Auxílio Emergencial. O governo queria 200 reais de auxílio, o Congresso conseguiu 600 reais. Milhões de brasileiros foram diretamente beneficiados pela existência da democracia.

Milhares de brasileiros também são beneficiados pelas pesquisas, realização de diagnósticos e testes da COVID-19 (doença do Coronavírus), seja por meio do desenvolvimento de aplicativos para lojistas e/ou ações de solidariedade promovidas pelas Universidades Públicas. Prova de que a democracia existe e continua agindo em prol da vida. Tanto é assim que o governo tentou desesperadamente sufocar esse espaço de resistência democrática que são as Universidades, mas, sua ação foi barrada no Congresso Nacional que, declarou a MP de intervenção nas Universidades algo inconstitucional. A democracia existe e salva vidas e não é uma migalha. Por ela vale a pena uma união, deixando de lado divergências menos importantes do que a vida humana.

Os governos estaduais têm firmemente contrariado as medidas de negação do isolamento social do presidente Bolsonaro. Os governadores do Nordeste se destacam neste quesito pela bravura, defesa da Ciência e da vida. Mas no sul e sudeste, mesmo os governadores claramente neoliberais, batem de frente com as ideias genocidas do presidente. Isso seria possível se a democracia ainda não resistisse? Se não fosse a ação dos governadores, teríamos mais ou menos mortes? Não é possível dizer que democracia existe e salva vidas?

Bolsonaro tenta pautar o país com sua agenda de violência, desrespeito à vida, propagação do ódio. No entanto, pelo menos 70% da população são bem melhores do que isso. Há um grande sentimento de amor colocado em prática na ação dos profissionais da saúde que enfrentam a mais grave pandemia dos últimos tempos, arriscando suas vidas diariamente. Também há valor na multidão de pessoas à frente de serviços essenciais, igualmente colocando suas vidas em risco. Suas existências não são movidas por ódio, mas por amor as suas famílias e senso de fazer bem o que lhes cabe.

Há grande energia de solidariedade social e disposição de resistência nas múltiplas ações de ajuda de entidades das mais variadas. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) está distribuindo alimentos nas periferias; o Instituto “E se fosse você?” em Porto Alegre, segue na mesma toada; além tantas outras ações anônimas, muitas vezes invisíveis. Neste domingo, na ruas, jovens na maioria de periferia e negros, foram às ruas pelo Fora Bolsonaro, contra o racismo e o fascismo. O país é muito maior do que o ódio e viverá na democracia para superar esse tenebroso momento de sua História. A democracia ainda existe, salva vidas, e deve unir o Brasil.

Por Igor Corrêa Pereira - Brasil 247