“Pode chover, pode molhar, a mulherada está na rua para lutar”. Foi sob a chuva que caiu no início da noite desta sexta-feira em Porto Alegre que milhares de mulheres, e também homens, caminharam pelas ruas do Centro da cidade no ato que encerrou as atividades do Dia de Luta das Mulheres. Um ato colorido, com bandeiras de diversos movimentos sociais e organizações de mulheres, mas com mensagens urgentes: chega de feminicídios, nem uma a menos, em defesa dos direitos das mulheres, pela legalização do aborto seguro e contra a reforma da Previdência. O bordão “Ele Não” e outras críticas ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) também foram repetidos em diversos momentos do ato.

O 8 de Março, Dia da Mulher, dos movimentos sociais de Porto Alegre foi marcado por uma série de atividades realizadas desde o início da manhã no Largo Glênio Peres. A programação se estendeu ao longo de todo o dia com painéis sobre a violência contra a mulher, a reforma da Previdência, entre outros temas. Ao cair da tarde, por volta das 17h30, iniciou-se a concentração para o ato da Esquina Democrática.

Aos poucos, milhares de pessoas foram se reunindo no tradicional ponto de manifestações políticas no Centro de Porto Alegre, ao redor de um caminhão de som, para o ato intitulado “Pela vida das mulheres trabalhadoras”.

Reforma na pauta

Por cerca de uma hora, lideranças femininas de sindicatos, partidos políticos e outros movimentos sociais alternaram falas com algumas manifestações artísticas. A maioria das falas destacou o papel das entidades representadas na luta contra a reforma da Previdência, com os discursos ressaltando que serão as mulheres trabalhadoras com filhos as mais prejudicadas, visto que, além de terem de trabalhar por mais tempo concomitantemente à realização de jornadas duplas e triplas, o aumento do tempo de contribuição dificulta a obtenção do benefício por quem tem uma vida de trabalho marcada por períodos em que não consegue manter a constância nas contribuições. Muitas falas fizeram a convocação para novos atos contra a reforma e pela construção de uma greve geral.

Lembrança de Marielle

A poucos dias do primeiro aniversário de sua morte, Marielle Franco foi a figura mais lembrada no ato de Porto Alegre. A cada poucas falas se ouvia um grito “Marielle, presente”, e em alguns momentos foi cantado o refrão do samba-enredo campeão da Mangueira, que trazia uma homenagem a ela. O rosto da vereadora assassinada também estava presente em diversas faixas e bandeiras. Um novo ato foi convocado para o dia 14, data em que ela e o motorista Anderson Gomes foram assassinados, no Rio de Janeiro.

Nem uma a menos

Como não poderia deixar de acontecer num 8 de Março, a violência contra a mulher também foi muito lembrada. Diversas falas destacaram a estatística, infelizmente já defasada, de que a cada 12 horas uma mulher é vítima de feminicídio no País — nesta sexta, o site G1 divulgou um levantamento que aponta que 1.173 feminícidios foram registrados no Brasil em 2018. Foi chamada a atenção para o fato de que os números já registrados em 2019 são ainda mais alarmantes — a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) registrou 126 casos em janeiro, mais de 4 por dia. Algumas falas lembraram de Isabela Miranda de Oliveira, a jovem que morreu nesta semana após ter o corpo queimado pelo namorado depois de ter sido estuprada pelo cunhado dele.

A caminhada

Por volta as 19h, as manifestantes iniciaram uma caminhada em direção ao Mercado Público. As falas deram então lugares para cantos de ordem, puxados por diversos grupos de mulheres armados com instrumentos musicais. “Nem fraquejada e nem do lar, a mulherada tá na rua pra lutar” e “Ô Bolsonaro, vai se…, eu não vou trabalhar até morrer”, diziam dois dos cantos mais cantados no ato.

Mesmo sob a chuva constante a partir do início da caminhada, a manifestação seguiu pelo Centro pela Av. Julio de Castilhos, passando pelo Túnel da Conceição — o momento de maior animação do ato –, retornando ao Centro até ser encerrado no Largo Zumbi dos Palmares, por volta das 20h30.

Fonte: Sul21